domingo, 31 de outubro de 2010

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Repetição (padrão)

Nem importava de quem era o cadáver. Linda dizia-lhe sempre que não o deveria ter feito. Ao menos alguém lúcido lá em casa: Javier adorava o contraditório.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

terça-feira, 26 de outubro de 2010

The Winter takes it (us) all



My favourite moment? Agnetha, 3'26'': that tongue kills me.

Cena degradante

Claro que todos gritaram "Milagre!". Mas não foi isso que tornou mais fácil a tarefa de José Maria: foi com esforço, e olhem que muito até, que se arrastou até ao altar. Cristo fez vista grossa, mas Lina garante-me que lhe viu os cotos em sangue. Acredito.

Ortofilia

A ideia surgiu-lhe ainda Fernandes assentava o cu no sofá. Entreolhando o gesso. Reuniu todas as radiografias e afixou-as na maior parede da sala. E porque não? Assim que chegou a casa, Inês pôde deliciar-se com aquela magnífica fractura exposta.

Alucinação

Mas que maldita fixação aquela: assim que passou pelo arco, Paulo voltou a ver Íris.

Ásia mia

A veces hecho de menos a mi maquinilla. Sólo tenía cinco letras pero no importaba: con ellas podía escribir "Manila" — y todavía me sobraban letras para otra capital.

Ausencia

¿No vino? ¿Y como no vino? Tito ya no era tonto — era tinto.

sábado, 23 de outubro de 2010

Labor

O Fernando — Nando, Fanã, , o que lhe quiserem chamar — trabalha sempre que nem uma formiga. Mais, aliás, muitíssimo mais do que uma formiga. Talvez por isso nunca ninguém nele tenha reparado.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Virgem

João Paulo preparava-se para atacar o antepenúltimo capítulo quando, por infelicidade, reparou naquela maldita revista. Abandonada no bidé, já demasiado salpicada, a página do zodíaco ainda gritava: "O seu romance prepara-se para passar uma fase instável."

El saurio Dino

Cuando adormeció, el dinosaurio ya no estaba allí.

Sobe-e-desce

No dia em que Vânia se apaixonou por Magnus, o vizinho sueco do quinto-esquerdo, a sua vida deu uma volta de 180 degraus. Bom, o importante é que é feliz (e tem os gémeos tonificados).

Sesión "Ob"

Ángel tenía una única obsesión: curarla.

Viagem no tempo

Quis ir longe demais. Foi tanta a ambição que Esteban agora é um sem-Terra.

Curto

Ali, Babá só media um metro e quarenta... Ladrões!

O Espírito de Zamora


Fernando Martos, conhecido recitador de Castilla-León, lê dois microcontos durante a apresentação de "Circo Vicioso", na Fundação Rei Afonso Henriques. Eis o espírito de Zamora, já denominada "Capital Ibérica do Microconto".

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Esquema

Jeremias gaba-se de preferir comida leve (e não pague).

É da vida

Na tarde em que viria a morrer (falecer), Raul lembrou-se que estava bem vivo.

Alguma teoria


Esta semana, na edição gratuita do "Voz de Zamora". Mas fiquem com o texto em formato mais legível:

Quando menos é mais

João Lopes Marques

Como tantas coisas na vida, os microcontos são filhos da frustração. Ou a sua expressão. A sempiterna falta de tempo para ler, certo, mas sobretudo a impossibilidade de contar todas as histórias que nos (me) atropelam a mente.

O espírito.

Vão e vêm. Fluem, e quantas vezes do nada. No duche, à mesa, na piscina, para retardar o orgasmo. Começo a crer estarem para a escrita como um penálti (injustificado) para o futebol. Não temos de armar jogo, basta chutar bem. Que nos ponham a bola na marca, pois.

Mas a frustração. Convenhamos: a sofreguidão das grandes narrativas, dos romances, também desajuda. São nobres e aglutinadores. "Que história vem a ser esta dos microcontos?", questiona-se o autor, e muito legitimamente. É que nem haiku nem palavras cruzadas, muito menos poesia — é que nem sequer rimam.

"E porquê rimar?", voltamos a duvidar. A colectivização dos textos é a métrica do século XXI. E foram as redes sociais — o Facebook, o Twitter — que me reiteraram o poder da livre criação. Vivemos um tempo histórico em que a tensão entre forma e fundo está ao rubro, como se todas as combinações fossem novamente possíveis.

Paradoxalmente, foi uma perna partida que me emprestou algum tempo para este croché mental. Passei a editar os microcontos no meu blogue e, acto contínuo, a projectá-los na Grande Rede. Tallinn estava demasiado gélida, mas o retorno dos leitores deslizava veloz até ao meu sofá. Foi esse bumerangue digital que me fez acreditar.

Garantia-nos Arquimedes que se lhe dessem uma alavanca levantaria o mundo. Não duvido, embora acredite hoje que um link é o melhor fulcro. Quanto mais compacto, condensado, melhor. Menos pode ser mais. Todos negociamos o tempo, afinal o bem mais escasso. Homeopatia literária? Porventura. Um microconto pode valer por mil imagens. Abarca-se num só olhar e desconstrói-se no que sobra da jornada. Entretém e estimula na directa proporção da sua polissemia. Surrealismo. Lirismo. Humor. Ironia.

Vicia a tal ponto o autor que o leitor imediatamente se apercebe estar a interagir com um adicto.

Ágil e leve, o microconto tem ambições libertárias. Arroga-se de competir com a fotografia. Tamanha embriaguez fá-lo esquecer-se da sua limitação suprema, a mesma que carregamos desde Babel. Em rigor, todos lutamos contra Deus: dia após dia, tentamos restaurar a universalidade que Ele nos subtraiu ao criar tantas e tão diferentes línguas.

Demasiado entendimento na Terra pode gerar soberba no Homem. É um facto. Não obstante, línguas há que estão (são) mais irmanadas do que outras. O português e o castelhano, por exemplo. Disso consciente, e mesmo assumindo que toda a tradução é sempre um pequeno milagre, Rocío Ramos lançou-me o repto:

"E que tal vires até Zamora apresentar uma edição bilingue do 'Circo Vicioso'?"

Nem foi preciso convencer-me. O mundo, esse circo vicioso por excelência, está saturado. As grandes metrópoles adoram impor-nos o seu olhar rarefeito. Cíclico e circular. Equivocam-se, porém. As novas ferramentas são perversas: ao desmaterializar, aproximam; ao encurtar, democratizam.

Caducam anacrónicos determinismos. Quem diria que a pós-pós-modernidade subverteria inclusive a lógica das sequências alfabéticas? Que se jogaria até nas improváveis periferias começadas por "z"?

Haiku de merda

Levava uma Fuji, Mas do monte fugi, Sim, do Monte Fuji.