segunda-feira, 23 de Novembro de 2009
Vida interior
Stephan comeu-o vivo, o que não foi, nem de perto nem de longe, a mais sábia das decisões. Opções. Teve de (con)viver com ele no bucho até ao final dos seus sofridos dias. Estranha criatura, aquela: Manfred adaptou-se muito bem e lá refez a sua existência nas entranhas do companheiro. Com certas (bastantes) limitações, evidentemente.
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As duas sabrinas
Sabrina era tão alta que só podia calçar sabrinas. Fintava a frustração fantasiando noites inteiras com cavalheiros bem-parecidos montados em sapatos de vela (mas de sola grossa). E isto, e será importante relevar, apesar de odiar fazer cera e ter muito medo de acordar chamuscada.
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sábado, 21 de Novembro de 2009
QI
O Tó-Mané era ainda tenra criança quando surgiu (sentiu) a primeira pontada. Aguda e ligeiramente acima do rim. A partir daí, desse maldito instante, as dores de burro nunca mais cessaram. Antes pelo contrário, e por vezes com desusada virulência. Mas a verdade é que o doutor Moraes nem repreendeu o seu paciente por ter adiado tantas décadas um diagnóstico. O QI de Tó-Mané nem os dois dígitos alcançava. Nunca o doutor Moraes se tinha deparado com embotamento tão doloroso.
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Anelídeos
Escavava e escavava. E ainda escavava mais (tudo o que podia). Consumia-se na construção de túneis e galerias mirabolantes. Quanto mais subterrâneos, e compridos, melhor. E depois içava-se arrastadamente até à superfície, assim como quem não quer a coisa. E enrolava-se, e desenrolava-se, e imobilizava-se, e estrebuchava. Às vezes também se divertia a desenhar coreografias circulares. Ou estranhos ésses. Contudo, o que lhe dava mesmo prazer, prazer-prazer, era escavar. Escavar, escavar, escavar. E tudo recomeçava. Passava os dias nestas minhoquices.
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sexta-feira, 20 de Novembro de 2009
Velho aforismo frísio
Contou-mo o meu bom amigo Simon e, mesmo com a fulana a relinchar furiosamente atrás do bar, julgo ter percebido bem: "É ao pé da pedra que o artista talha a obra; e a melhor obra só se talha com a pedra."
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Zédu
Nunca pusemos em causa que o Zédu fosse um bom volante, só que sentia ponta àquela hora. O pior é que no domingo viu no trânsito um sinal. Nunca mais o conseguimos travar (nem valia a pena). Ontem viram-no na Brandoa. E o papá ainda não perdeu a esperança que o José Eduardo apareça pelo Natal.
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quinta-feira, 19 de Novembro de 2009
A namorada
Se os amigos são para as ocasiões, foi precisamente naquela que Rafael se fez ladrão.
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Os três gémeos de Odense
Eram os três gémeos, embora só outra coisa venham a ter em comum. Berthold caminhava a olhar para o chão, pois assim mais fácil se tornava tropeçar numa nota ou moeda perdida, quiçá num objecto ainda mais valioso. Bjørn projectava o olhar numa paralela ao chão, em frente é que era, só assim podia antecipar as novidades que se escondiam atrás da linha do horizonte. Bernt passeava-se boquiaberto a fitar as estrelas, cria numa que lhe iria indicar o caminho. Claro que nenhum teve mais sorte do que o outro. Somente a felicidade de morrerem na mesma tarde, e já quase na passagem de nível.
Desencontros
Se ninguém é profeta na sua terra, muito poucos são os génios no seu tempo. Especialmente aqueles que engarrafados vivem.
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Etcétera
E assim, sem mais nem menos, terminámos uma relação de catorze anos. Como um fósforo que arde. "Porque cheiras muito mal da boca e etcétera", justificou-me Mariliis. Desconhecia ter assim tantos problemas, mas até compreendo os motivos dela.
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Por este andar
Segundo os seus cálculos, terá visitado mais de setecentos apartamentos. Só degraus estima ter subido uns dois milhões. Nada. Raul insiste que é muito difícil sentir química por uma casa. Mas física já é bem diferente.
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quarta-feira, 18 de Novembro de 2009
El Matador
Guillermo era cabeleireiro de profissão, mas, ao fim e ao cabo, feitas bem as contas, cortava mais orelhas do que cabelos. Se era por prazer sádico ou se fruto do seu comprovado estrabismo, nunca ficou totalmente esclarecido. Isto já para não falar de uma tesoura ou outra que, de quando em vez, aparecia cravada no dorso dos clientes mais fiéis.
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Cá em baixo
Nem me importo muito de ter vindo aqui parar. Lá em cima, a minha vida já estava mesmo um inferno. Só não adoro ter os pés acorrentados e que insistam em espetar-nos forquilhas no cu. A ventilação também poderia ser melhor, mas isso o senhor Diabo já nos garantiu que vai resolver para a semana.
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Verve, ferve, verne
As últimas páginas da obra foram de todas as mais apetecidas. Saborosas. Alex sentiu-se embalado, tinha finalmente mão livre para descer. O problema é que não conseguiu levantar a calcinada tampa de esgoto aqui da rua (ninguém consegue). Típico. Deu meia-volta e, jogando-se para dentro do primeiro táxi, ouvimo-lo agora a rogar ofegante: “Uma viagem à terra do Centro…”
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Hirsutismo
É que nem Aruba nem Bermuda (de jeito nenhum). O problema de Maria é que era hirsuta. Barbuda.
terça-feira, 17 de Novembro de 2009
Tambor
Que lhe cheirava bastante a pólvora, era óbvio. Flagrante. Ardiam-lhe as narinas. Só nunca pensou que poderia matar um homem (ou mulher).
TGV
Pouca-terra, pouca-terra, pouca-terra... O comboio segue imparável. Imperturbável. Vai desembestado na sua linear marcha: pouca-terra, pouca-terra, pouca-terra... E, de facto, terra é o que não abunda ali. É natural, pois este é um expresso (e bem veloz, ou cafeínado, por sinal).
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Cachorro frio
O Carlos quis voltar à vaca fria. Insistiu, forçou, impôs até. Mas Andreia fez-lhe a barragem possível. É que não mesmo. Outro cão naquela casa era filme em que não entraria. O Piloto ficara aquém das (suas) expectativas.
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Meios e fins
Toomas gabava-se de não fazer as coisas por metades. O cruel destino que traçou para a sua esposa terá sido a excepção. Perdeu a cabeça.
segunda-feira, 16 de Novembro de 2009
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