sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Alguma teoria


Esta semana, na edição gratuita do "Voz de Zamora". Mas fiquem com o texto em formato mais legível:

Quando menos é mais

João Lopes Marques

Como tantas coisas na vida, os microcontos são filhos da frustração. Ou a sua expressão. A sempiterna falta de tempo para ler, certo, mas sobretudo a impossibilidade de contar todas as histórias que nos (me) atropelam a mente.

O espírito.

Vão e vêm. Fluem, e quantas vezes do nada. No duche, à mesa, na piscina, para retardar o orgasmo. Começo a crer estarem para a escrita como um penálti (injustificado) para o futebol. Não temos de armar jogo, basta chutar bem. Que nos ponham a bola na marca, pois.

Mas a frustração. Convenhamos: a sofreguidão das grandes narrativas, dos romances, também desajuda. São nobres e aglutinadores. "Que história vem a ser esta dos microcontos?", questiona-se o autor, e muito legitimamente. É que nem haiku nem palavras cruzadas, muito menos poesia — é que nem sequer rimam.

"E porquê rimar?", voltamos a duvidar. A colectivização dos textos é a métrica do século XXI. E foram as redes sociais — o Facebook, o Twitter — que me reiteraram o poder da livre criação. Vivemos um tempo histórico em que a tensão entre forma e fundo está ao rubro, como se todas as combinações fossem novamente possíveis.

Paradoxalmente, foi uma perna partida que me emprestou algum tempo para este croché mental. Passei a editar os microcontos no meu blogue e, acto contínuo, a projectá-los na Grande Rede. Tallinn estava demasiado gélida, mas o retorno dos leitores deslizava veloz até ao meu sofá. Foi esse bumerangue digital que me fez acreditar.

Garantia-nos Arquimedes que se lhe dessem uma alavanca levantaria o mundo. Não duvido, embora acredite hoje que um link é o melhor fulcro. Quanto mais compacto, condensado, melhor. Menos pode ser mais. Todos negociamos o tempo, afinal o bem mais escasso. Homeopatia literária? Porventura. Um microconto pode valer por mil imagens. Abarca-se num só olhar e desconstrói-se no que sobra da jornada. Entretém e estimula na directa proporção da sua polissemia. Surrealismo. Lirismo. Humor. Ironia.

Vicia a tal ponto o autor que o leitor imediatamente se apercebe estar a interagir com um adicto.

Ágil e leve, o microconto tem ambições libertárias. Arroga-se de competir com a fotografia. Tamanha embriaguez fá-lo esquecer-se da sua limitação suprema, a mesma que carregamos desde Babel. Em rigor, todos lutamos contra Deus: dia após dia, tentamos restaurar a universalidade que Ele nos subtraiu ao criar tantas e tão diferentes línguas.

Demasiado entendimento na Terra pode gerar soberba no Homem. É um facto. Não obstante, línguas há que estão (são) mais irmanadas do que outras. O português e o castelhano, por exemplo. Disso consciente, e mesmo assumindo que toda a tradução é sempre um pequeno milagre, Rocío Ramos lançou-me o repto:

"E que tal vires até Zamora apresentar uma edição bilingue do 'Circo Vicioso'?"

Nem foi preciso convencer-me. O mundo, esse circo vicioso por excelência, está saturado. As grandes metrópoles adoram impor-nos o seu olhar rarefeito. Cíclico e circular. Equivocam-se, porém. As novas ferramentas são perversas: ao desmaterializar, aproximam; ao encurtar, democratizam.

Caducam anacrónicos determinismos. Quem diria que a pós-pós-modernidade subverteria inclusive a lógica das sequências alfabéticas? Que se jogaria até nas improváveis periferias começadas por "z"?

11 comentários:

Rocío disse...

Começo a ficar preocupada contigo e com a tua integridade física: além de trazeres óculos escuros e gabardina... será que tenho de contratar guarda-costas??!
;-)

PS: Desta vez não faz falta tratado nenhum, Zamora já se rendeu (a ti)

Manu disse...

Quando escreve assim é quando está no seu melhor.
Declaração de amor ao leitor. Espero, da minha parte, que tenha correspondido. Eu sei que por vezes estou mais para pesadelo..rsrsr

Mesmo que tenha começado por "z", quem sabe um dia chegue ao "b" (e não é bunda).

Muito sucesso pra você,João, e para a companheiraça Rocío.

***** Felicidades******

Manu

Obdulio Ortega disse...

Visitei-te, viciei-me, venci-me, verbalizei, volteei, voltarei...

Anónimo disse...

O microconto possibilita a transgressão...a libertação...Ele pinta e borda o 7 no "céu"!!!

Paulo Freixinho disse...

Palavras cruzadas... :-)
E lá fui pesquisar sobre haiku, uma forma poética de origem japonesa... interessante...

Manuela disse...

Quando você escreve assim, eu sinto borboletas no peito.
Anônimo você voltou...que bom. Pode tirar as aspas do céu.

Tsemog disse...

Parece que o Mundo super-acelerou por um segundo,pra me ejectar direto no túnel luminoso dos teus escritos! E eu,agora?! Uma versão "pós-pós moderna" de " Alice no País das Maravilhas ou dos Espelhos "...!Meus neurônios estão perplexos: reorganizando e decodificando os novos significados desse novo DNA literário que você (pra mim) representa...Que modo Uni-multidimensional de enxergar e traduzir o " con-texto " subjetivo- virtual e tão real deste século XXI . É tudo que quero ser quando crescer...! Mas que bobagem ! A Natureza nunca se repete...Se diversifica infinitamente e,você, ASSIM, é único! Entretanto,com certeza,"somos parentes"...Simpática e sincronisticamente rendida também ! Valeu por seguir nosso twitter ! Tsemog.

Anónimo disse...

Manu, é que hoje tá tudo misturado...

Sofia disse...

sinto-me vaidosa pelos meus amigos cibernéticos...^_^

beijocas

Manuela disse...

Gostei do que escreveu, João. Como já disse acima. Palavras simples, diretas, escorrendo como as águas límpidas do ribeirão.
Devia escrever mais vezes assim..

João Hartley disse...

Já faz uns tempos largos que andava eu a iniciar-me nas lides das redes sociais, e em particular no Twitter, quando tropecei no Joonas e nos seus microcontos. Mas que raio! - pensei eu. Este tipo é aquele autor dos dois livros que comprei há pouco tempo. Mal sabia, que poucos meses depois, e graças ao Circo Vicioso, iria estar a beber uma cerveja contigo, com a Rócio, com o Freixinho e com todos os agora colegas do ReporterClix.
Serve este Blá Blá Blá (sem media), para te agradecer, em primeiro lugar pela fantástica prosa com que nos brindas diariamente e, em segundo lugar, por ter readquirido o prazer de "escrever" (algumas palermices) de novo.
Por isso a minha vénia e o meu obrigado ao Mestre.

Moleiro

Tinha aveia para o negócio.